Artigo de opinião de Ricardo T Oliveira – do outro lado do Atlântico – Carnaval, política (e economia)

Cresci em Portugal sempre com a imagem do Carnaval do Brasil. Ainda hoje em Portugal muitos associam o nosso Brasil ao Carnaval, sempre com grande destaque para o Rio de Janeiro e para o seu famoso desfile na Marquês de Sapucaí! Mesmo sem lá ir, as descrições que os amigos me traziam eram sempre curiosas (quero dizer com isto que aguçavam muito a minha curiosidade…). As descrições e a televisão traziam imagens deslumbrantes.

Quando cheguei ao Rio de Janeiro sempre tive algum desejo de poder viver aqueles momentos, onde pelas revistas víamos os governadores, prefeitos e muitos outros políticos, “curtindo” e “prestigiando” o evento. Todos queriam ir, todos queriam estar!

Tive o privilégio de assistir ao encerramento das Olimpíadas de 2016 na companhia de 1 dos meus filhos. Na ocasião, para além do espetáculo fantástico e bem organizado foi possível – mesmo não sendo carnaval – sentir o tal ambiente carnavalesco de muito ritmo, alegria e samba. Nesse dia, o então prefeito Eduardo Paes surgiu com um típico panamá e cantou com todos o hino carioca… Cidade Maravilhosa…

Com essa música o estádio do Maracanã virou Carnaval, com a chegada do Cordão do Bola Preta (principal bloco de rua do RJ) e de integrantes de escolas de samba. Com todo este espetáculo a minha curiosidade cresceu e no ano seguinte fui ao Sambódromo!

Só que esse espírito carnavalesco e festivo comum a todos os prefeitos das últimas 3/4 décadas foi substituído a partir das eleições municipais de 2 de outubro desse ano. O prefeito então eleito – Marcelo Crivella – fez impor as suas convicções religiosas e abriu uma guerra ao carnaval do Rio de Janeiro, que foi logo evidente no seu primeiro ano de mandato (2017). Apesar do que se viu a partir da sua posse em 1 de janeiro de 2017, antes da eleição, em 14 de outubro de 2016, às portas do 2º turno posou em momento de campanha com o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA) e com presidentes de várias escolas (Mangueira e Salgueiro por exemplo), trabalhando dessa forma para a vitória que viria poucos dias depois.

Verificou-se então a crise de relacionamento do Prefeito com o Carnaval, com todos os efeitos negativos de imagem que isso trouxe para a cidade e impactos também negativos na economia da cidade e região. Desde a inauguração do Sambódromo, em 1984, a primeira vez que um prefeito em início de mandato não participou no carnaval do Rio foi em 2017. Crivella viajou e não esteve na Sapucaí durante os desfiles das Escolas de Samba e não entregou a chave da cidade para o Rei Momo, que marca a abertura oficial das festas.

Nos anos seguintes a situação piorou, pois apesar do impacto mediático e receitas do evento, o prefeito cortou as subvenções para as escolas de samba a metade, o que dificultou muito o valoroso trabalho de todos os intervenientes de cada escola. Mais, esses parcos pagamentos foram feitos quase às vésperas do carnaval, o que prejudicou, sem dúvida, o ambiente que se viveu em cada uma das escolas.

Mas não só de desfile na Sapucaí vive o carnaval do Rio De Janeiro. De há alguns anos para cá o carnaval de rua e os seus blocos foram-se espalhando pela cidade, desde os mais tradicionais, até aos mais recentes, todos eles arrastando multidões e foliões pela cidade.

Também para o carnaval de rua o prefeito foi impondo restrições e obrigações, muitas vezes não compatíveis do ponto de vista orçamental, com aquilo que são as condições dos organizadores.

O período oficial do carnaval foi reduzindo, tendo atingido em 2019 apenas 23 dias, no período de pré-carnaval e carnaval.

Mas, finalmente chegou 2020 e ano de novas eleições municipais no Brasil, que levarão, como se prevê, o atual prefeito a uma tentativa de reeleição.

Com isso a política mudou e trouxe para este ano uma ótima abertura para que os festejos carnavalescos cariocas sejam mais longos, mais divertidos e com maiores reflexos positivos na economia da cidade e da região.

O primeiro anúncio (com grande impacto mediático) foi o aumento do período oficial do Carnaval para 50 dias (mais do dobro do ano passado), colando quase o evento ao réveillon, com término a 1 de março. O número de blocos registrados já bateu todos os recordes, estando já cadastrados cerca de 550.

Estima-se que esta medida consiga aumentar o incrível número de turistas/visitantes de 1,7 milhões para 1,9 milhões.

O presidente da Riotur afirma que será a maior folia que a cidade já viu e que se espera que a ocupação hoteleira atinja os 100%. A movimentação económica ultrapassará os 4 bilhões de reais (quase mil milhões de euros).

Números incríveis e fantásticos, mas sobretudo importantíssimos para a economia do Estado e da cidade do Rio de Janeiro, que tão depauperados têm andado.

É isto, a política castigou três anos o carnaval, os seus dinamizadores, organizadores e com isso também a economia da cidade e do estado. Para quê?…

Bem-haja ano eleitoral!

Agradecem os foliões, mas sobretudo os empresários da hotelaria, bem com os outros contribuintes do estado e do município cujos cofres ficarão muito mais recheados em 2020, o que nos permitirá olhar para o futuro com mais esperança!

Nota final: quem sabe o prefeito Crivella entrega (ele mesmo) as chaves ao Rei Momo!!