Artigo de opinião de Ricardo T Oliveira – do outro lado do Atlântico “Estará o foguete preparado para levantar voo de novo?”

Fez em novembro 10 anos a famosa capa da revista “The Economist”, em que o Cristo Redentor levantava voo, ambicionando então o Brasil a ser uma das 5 potencias económicas do mundo.

Na altura o país era apresentado como “a maior história de sucesso da América Latina”, apontando ainda que o crescimento estava em vias de aumentar o seu ritmo. O Brasil, de repente, parecia ter feito uma entrada no palco mundial.

Em 2009 a economia mundial caía 1,7%, os Estados Undos 2,7% e a Zona Euro 4,5%. Enquanto isso o Brasil caía apena 0,1%.

Em 2010 e 2011 o Brasil continuou com índices de crescimento superiores às principais potencias do mundo ocidental (em 2010 cresceu 7,5%!), fazendo entender que o crescimento poderia ser sustentado, até porque as “commodities” brasileiras estavam num mercado mundial bem quente, dando grande força à sua economia.

Foram também, nesse período, tomadas diversas medidas políticas para estimular o consumo interno do país, bem como outras medidas visando a redução da pobreza, o que impulsionou ainda mais a economia e o crescimento do PIB.

As perspetivas de futuro eram então muito boas, associadas ainda a alguns eventos que o Brasil se preparava para organizar, nomeadamente a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de Verão no ano de 2016, estas últimas no Rio de Janeiro, que trariam grande projeção mundial ao Brasil, para além das vantagens regionais da realização do evento. O Brasil estava na moda!

Mas, o “negócio” não correu bem e a prestigiada “The Economist” menos de 4 anos depois apresentou nova capa com o Cristo Redentor, desta vez em trajetória inversa…, com o título:

“O BRASIL ESTRAGOU TUDO?”

Efetivamente o Brasil fez muito pouco para implementar reformas nos anos de expansão. O setor público brasileiro ainda hoje impõe um fardo particularmente pesado ao seu setor privado. As empresas enfrentam o código tributário mais oneroso do mundo, onde os impostos sobre a folha de pagamento chegam quase a 60% dos salários.

Apesar de o Brasil ser um país jovem gasta uma parcela da renda nacional em pensões equivalente ao sul da Europa, onde a proporção de idosos é três vezes maior.

Os gastos com infraestrutura são muito escassos e o país continuou (e continua) com péssimas ligações de transporte apesar das suas dimensões continentais. O mau estado da infraestrutura existente implica em custos desnecessários nas empresas, levando, em muitos casos, a se gastar 25% do valor de produto para o levar até um porto. Assim, fica difícil concorrer, sabendo-se que nos Estados Unidos, por exemplo, esse valor é normalmente inferior a 10%.

Associados a todos esses problemas estruturais o Brasil passou por uma série de outros problemas políticos e sociais, que fizeram acentuar tudo e levar o país para uma situação económica muito desfavorável. Nem a “The Economist” imaginaria um cenário tão negro após 2013 e que ainda hoje em 2019 se fazem sentir na sociedade brasileira, de forma quase transversal.

Chega então o momento, na entrada de um novo século, de fazer a pergunta:

Estará o foguete preparado para levantar voo de novo?

À parte dos problemas políticos, que não entram nas minhas crónicas, o Brasil conseguiu em 2019 fazer a tão desejada “Reforma da Segurança Social”, anunciou para 2020 a muito desejada “Reforma Tributária”, para além de outras iniciativas e anúncios visando o investimento no país, sobretudo em infraestruturas e em cooperação com o setor privado, com a aplicação de vários modelos, nomeadamente PPP e Concessão.

O Brasil continua muito carente em infraestruturas – Rodovias, Ferrovias, Saneamento, Energia, etc., etc.

Será que se encontrou o caminho? Será que os investidores internacionais vão aparecer e participar? Os sinais em 2019 não foram claros, mas é importante que os empresários e as pessoas comecem a acreditar, tentando introduzir uma agenda positiva.

O Brasil tem de dar uma nova imagem de si, como um país de futuro promissor, moderno e de estímulo aos empresários e empreendedores, que nalguns setores já mostram que se os deixarem, muito contribuem para a riqueza geral do país.

Liguem os motores do foguete e deixem aquecê-los, tudo o resto virá naturalmente!

Nota: em português de Portugal “foguete” é “foguetão”