Artigo de opinião de Ricardo T Oliveira – do outro lado do Atlântico “O protecionismo, a competitividade e as pontes de Jesus”

Ao longo de décadas (senão mesmo séculos) o Brasil teve sempre uma atitude protecionista das suas empresas em relação a uma eventual “ameaça” de empresas de outros países, que, muitas vezes, procuram este país continental para expandir os seus negócios, ganhar dinheiro e ajudar a economia local.

Foi até criada a expressão “Incorporação nacional”, que nalguns casos virou lei.

Ao longo dos anos, talvez por ser estrangeiro, critiquei esta postura que traz, em minha opinião, defeitos ao mercado, sobretudo no que respeita a capacidade de concorrência entre as empresas e a melhoria nos métodos e práticas de trabalho de cada um, que num mercado aberto precisam estar sempre em melhoria e otimização.

Assisti, sobretudo na área de engenharia, à tentativa de internacionalização de muitas empresas brasileiras, mas notou-se terem sempre dificuldades em ser competitivas, pois no mercado interno não tinham muita prática disso e lá fora esbarraram com outros parceiros habituados a um mercado global e concorrencial.

Estamos na era da globalização e por isso devemos entender que os protecionismos, a prazo, não são sustentáveis e trazem muitas vezes o reverso da medalha, que é a entrada de “players” estrangeiros não desejáveis no mercado e no país, com operações meramente financeiras sem deixar mais valias por onde passam.

Na economia e nos mercados, tal como nas relações humanas devemos entender que os processos são biunívocos, em que, neste caso concreto, aquilo que pretendemos obter fora de portas deve ser também concedido a empresas (ou pessoas) de fora que venham trazer coisas boas ao Brasil e à sua economia.

E aí, entramos num capítulo muito importante e que respeita à qualidade do que vem de fora. Tenho defendido também, ao longo dos anos, que para termos sucesso fora de portas (saindo da nossa zona de conforto) não devemos querer ser somente mais um. Devemos procurar somar pela diferença, pela complementaridade e pela inovação nos métodos, isto aplicável a todos os setores da economia e da sociedade. Temos também de ser corajosos e resilientes…

Assim, são conhecidos muitos exemplos de insucesso de empresas portuguesas que, nomeadamente na área da engenharia e construção, vieram para o Brasil para ser mais um no vasto mercado (sem nada de novo) e acabaram fechando as portas ao fim de algum tempo, com um saldo negativo nas contas para resolver.

Considero que deve ser também a preocupação dos inúmeros brasileiros e brasileiras (empresas e pessoas físicas) que nos últimos anos tem procurado em Portugal um porto de abrigo para os problemas de insegurança e instabilidade política do seu país de nascença, o Brasil. Mas a esse respeito darei futuramente a minha opinião.

Voltando ao assunto da abertura do mercado aos estrangeiros, explico agora porque me lembrei deste tema esta semana.

Foi, sem dúvida, o sucesso do novo “mito” carioca chamado Jorge Jesus…

Gostando-se dele, ou não, o que aconteceu veio mostrar que a entrada num mercado estrangeiro exige qualidade, perseverança e resiliência. O Jorge Jesus chegou e em 2 semanas já tinha sido atacado por muitos setores da sociedade que achavam que o Brasil não precisava de treinadores de futebol estrangeiros, muito menos este que, na opinião desses entendidos, nem sequer tinha grande curriculum.

Ora, o “Mister” (como é atualmente conhecido no Brasil) provou o contrário conseguindo ser e fazer aquilo que acima referi como fundamental para o nosso sucesso (empresarial ou pessoal) fora de portas. Foi inovador, mudou os métodos e respeitou os seus pares, dando-lhes o devido valor. Conseguiu em menos de 1 ano alcançar títulos inéditos no maior clube de futebol do Brasil, feitos esses que não tinha antes conseguido em Portugal.

E com isto, estabeleceu novas e sólidas pontes entre o Brasil e Portugal, pois respeitou os seus parceiros no mercado, contribuindo para uma melhor imagem do seu país. Obrigado “Mister”.

Aos outros, empresários e pessoas físicas… sigam o seu exemplo, cá e lá!