Gastronomia e Restauração Carioca

Crónica Ricardo T. Oliveira

Tornou-se lugar comum nas conversas com brasileiros, sobretudo com cariocas, sermos “forçados” a ouvir rasgados (muitas vezes justos) elogios à gastronomia portuguesa, incluindo a doçaria conventual, vinhos e os famosos pasteis de “belém”. Nessas conversas o carioca procura muitas vezes mostrar os seus conhecimentos da nossa gastronomia e restauração, referindo faustosas visitas ao Solar dos Presuntos, Magano e os mais viajados até ao Fialho em Évora.

São referencias justas e adequadas. Efetivamente esses são alguns (dos muitos) restaurantes portugueses onde dá prazer ir comer, conviver, ser bem recebido e por vezes ligar para reservar mesa para um amigo carioca de passagem por Lisboa e Portugal.

Acontece que nessas conversas há tendência para não valorizar devidamente a gastronomia brasileira e carioca e os ótimos restaurantes que o Rio de Janeiro tem para nos oferecer, seja pela variedade, seja pela localização, enquadramento, ou por vezes só pelo excelente ambiente que vivemos nesses espaços. Alguns restaurantes são barulhentos, mas isso é muitas vezes sinal de boa disposição e alegria de quem lá vai.

A gastronomia local tem uma variedade imensa, da mais simples até à mais elaborada. Apesar de ser uma tarefa complexa atrevi-me a escrever um pouco sobre as experiências (boas) que tenho tido.

Simples simples, mas únicos e muito gostosos (ou saborosos…) são os biscoitos Globo, que comidos nas praias da zona Sul, acompanhados de um chá Mate Leão, lhes dão outro requinte. Logo aqui se veem sinais da forte relação da cidade com Portugal. Estes biscoitos de polvilho, com mais de 65 anos de existência, tem uma embalagem que lhes procura dar projeção internacional, com 4 locais emblemáticos do mundo.

Assim, para além da Torre de Pisa e da Torre Eiffel, apresentam do seu lado direito o belo morro do Pão de Açúcar e nossa lusa Torre de Belém. Não fosse um dos sócios ser português originário da região de Santa Maria da Feira.

Saindo da praia e ainda com areia nos pés é sempre bom ir comer um pastel e uma cerveja original (600 ml) a um dos inúmeros botequins que se encontram a 1 ou 2 quadras da praia. Eu costumo comer de carne. Mas os de camarão (com ou sem catupiry) ou queijo são igualmente deliciosos. E tem sempre uma característica por vezes difícil de encontrar em Portugal neste tipo de petiscos…são fritos no momento!

Ao sábado é típico ir comer uma feijoada à brasileira. Quem não gosta de ir ao Aconchego Carioca – que recentemente abriu um espaço em Lisboa, ou à Academia da Cachaça no Leblon, ou então ir até à animação de Santa Teresa ao caraterístico Bar do Mineiro? É bem diferente da típica feijoada portuguesa, com destaque para o feijão preto e a carne seca.

Podíamos prosseguir com comidinhas boas cariocas, mas o Rio merece também que se fale dos ótimos restaurantes, com gastronomia variada e diferentes espaços.

Não saindo ainda de Santa Teresa, temos de falar do imperdível espaço do Aprazível. Começo pelo espaço, pois o bom gosto da decoração em madeira e a privilegiada localização fazem com que o nome seja o mais adequado possível. Mas também aqui a gastronomia (brasileira) é excelente. Entradas como o palmito fresco assado ou a terrine da casa dão mote a uma habitual refeição opípara sobretudo se passarmos em seguida para uma galinhada ou uma moquequinha do Rio.

Descendo de Santa Teresa para o centro da cidade, e se estivermos num dia de semana devemos ir almoçar ao Bar Luiz de ótima gastronomia alemã, um dos mais antigos restaurantes da cidade, fundado em 1887. Todos os pratos são bons, o espaço é típico e conserva a traça antiga. O choucroute alsassiano, as salsichas ou as costeletas fumadas sabem muito bem, sobretudo quando acompanhadas por um dos melhores chopes da cidade.

Saindo do Bar Luiz é ótimo ir tomar café à Casa Cavé, a confeitaria mais antiga do Rio de Janeiro – fundada em 1860, de origem portuguesa, onde os nossos doces são muito bem confecionados. Mas, para usufruir da culinária local, eu costumo degustar um saboroso quindim.

É altura de sairmos do Centro e irmos então para a zona Sul onde a oferta é imensa, a qualidade variável e, como gostos não se discutem, vou falar de poucos; os meus favoritos.

As casas do Claude Troigros no Leblon são todas excelentes, tanto o CT, como o Le Blonde, mas eu elejo o Chez Claude pela qualidade da comida, peculiaridade do espaço, com cozinha aberta para os clientes e o excelente serviço.

A chef Jéssica Trindade esbanja simpatia e competência. Imperdíveis o ceviche de cavaquinha com pupunha e o risotto caprese com vieiras. Único senão, não reservam mesa e a espera normalmente é longa.

Dando um salto a Ipanema temos de ir ao grego OIA, inaugurado em agosto de 2016, por ocasião das Olimpíadas do Rio. É um restaurante espaçoso, com uma decoração muito atraente. O serviço é muito bom e a gastronomia é de qualidade. Alguns pratos misturam sabores de mar e montanha, resultando em experiências gastronómicas que pedem repetição.

Mas numa crónica acerca da gastronomia e restauração do Rio de Janeiro tinha de terminar no JOBI. Local emblemático da cidade, já por vezes apelidado de templo da boemia, onde se está sempre bem. É um boteco com história, fundado em 1956. Não tem horário, pois não me lembro de lá ter ido e estar fechado!!

Gerido pelos proprietários Sr. Manuel e Sr. Narciso (entretanto infelizmente falecido) é de passagem obrigatória, seja para uma refeição mais composta – onde aconselho a picanha com arroz maluco, seja para simplesmente comer o melhor sanduiche de filé com queijo (vulgo prego em Portugal) do universo.

Podia ainda continuar a escrever de muito mais restaurantes e boas comidinhas, pois na cidade maravilhosa isso não falta.

Mas o melhor mesmo é “pegar” o avião e vir experimentá-los!

P.S. – como o texto não foi logo publicado, ainda me lembrei e vou a tempo de escrever acerca de outra comidinha… a sopa leão veloso no restaurante Caranguejo. Imperdível!