Ministro da Economia afirma que o Brasil também precisa enfrentar a ‘segunda onda’ da crise do coronavírus e que o caminho está nas reformas estruturantes

Instalado na Granja do Torto, residência oficial em Brasília onde moraram presidentes da República, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem feito longas caminhadas pelas manhãs enquanto planeja quais serão os próximos passos para retomar o crescimento do país. Com o avanço do coronavírus (Covid-19), Guedes teve de deixar de lado a sua agenda liberal e passou a abrir os cofres públicos para socorrer empresários, trabalhadores, estados e municípios. Nos últimos dias, ele anunciou medidas que somam 750 bilhões de reais, quase o mesmo valor poupado com a reforma da Previdência. Mesmo mudando a sua rota, o ministro defende que o Congresso, em isolamento social, aprove reformas estruturais para se antecipar a uma segunda onda da crise – que, para ele, será “mais desagradável”. “A nossa capacidade de retomar o crescimento vai depender da velocidade que vamos retomar as reformas estruturantes”, afirma Guedes.

A pandemia do coronavírus mudou a agenda econômica do Brasil. Agora, qual será o plano para proteger o país desta crise?
O Brasil estava em uma agenda de reformas estruturantes, que iriam recuperar o nosso crescimento sustentável. Estávamos reduzindo os investimentos estatais, abrindo a economia, reformando a Previdência, diminuindo os juros e o endividamento. O grande salto ocorreria com o pacto federativo, que iria transformar o país. Seria mais Brasil e menos Brasília. O objetivo era jogar os recursos para os estados e municípios. Era uma direção tão correta que, se isso tivesse sido feito antes, o coronavírus iria encontrar os estados e municípios mais fortes, com mais recursos financeiros nas mãos. Estávamos fazendo reformas estruturantes, jogando dinheiro de Brasília para a ponta, justamente para a saúde, o saneamento e a segurança pública, até que veio o coronavírus. Tivemos que mudar a agenda. Ao invés de reformas estruturantes, passamos a adotar medidas emergenciais. As reformas estruturantes são permanentes, sendo as que vão garantir o futuro do Brasil, com recursos para a saúde, o saneamento, a educação e a segurança pública na base, onde o povo vive. As medidas emergenciais são transitórias. É só uma golfada. Elas criam uma camada de proteção social aos mais frágeis. Agora, o nosso lema é: nenhum brasileiro será deixado para trás.

O senhor foi criticado por ter demorado para liberar o auxílio de 600 reais para os trabalhadores informais. O que houve, afinal?
Liberamos 98 bilhões de reais de ajuda emergencial aos trabalhadores informais. Esse valor corresponde a todas as despesas discricionárias para os ministérios neste ano. Fizemos isso em poucos dias, com uma só medida. Liberamos mais 51 bilhões de reais para os empregados que tiverem os seus salários reduzidos nos próximos meses. Queria ver quem faria isso em três semanas e meia. Quem sairia de uma agenda grande de reformas estruturantes para uma de medidas emergenciais com a mesma velocidade. Em um primeiro momento, eu só podia fazer medidas infraconstitucionais. Depois, consegui o direito de gastar mais, graças à decisão do ministro Alexandre de Moraes (do Supremo Tribunal Federal). Mas, depois, eu tinha outra trava: a regra de ouro (mecanismo que proíbe o governo de fazer dívidas para pagar despesas correntes). Se eu gastasse mais, iria quebrar essa regra. Havia uma divisão de opiniões dentro do ministério. Mas acabamos decidindo não esperar mais para resolver essa questão. Batemos o martelo e seguimos em frente. Os recursos devem ser liberados nos próximos dias. O Ministério da Cidadania, com o nosso apoio, está cuidando disso.

O senhor tem dito que a pandemia do coronavírus tem duas ondas. A primeira irá atingir a saúde dos brasileiros. Já a segunda terá impacto na economia. Como será possível passar por esses dois momentos?
Daqui a três, quatro ou cinco meses, essa primeira onda vai ter passado. A partir daí, estaremos presos numa segunda onda, que é a do desaquecimento econômico. A primeira onda, da saúde, já nos atingiu e começou a afetar a economia. Temos que pensar também em como sair da segunda onda que virá. Como? Retomando as reformas estruturantes. Quanto mais cedo, melhor. Se aprovarmos o saneamento, destravaremos a retomada dos investimentos. O projeto do saneamento está no Congresso há um tempo. Se aprovarmos o setor elétrico, as privatizações e as concessões, vamos ajudar a atrair mais investimentos. A nossa capacidade de retomar o crescimento vai depender da velocidade que vamos retomar as reformas estruturantes.

Fonte: Veja