No 1.º de dezembro de 2023, o Brasil assumiu a presidência de turno do G20, principal foro global de diálogo e coordenação sobre temas económicos, sociais, de desenvolvimento e de cooperação internacional. O grupo, que reúne as maiores economias de todas as regiões do mundo, representa cerca de 80% do PIB global, 75% das exportações e 60% da população mundial.

Com enorme satisfação recebi em novembro passado instrução para transmitir ao Governo português o convite do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que Portugal participasse da programação anual do G20 sob a presidência brasileira. O convite, que Portugal aceitou de imediato e agradeceu calorosamente, permitirá a este país participar de mais de uma centena de reuniões oficiais do agrupamento a terem lugar neste ano, entre as quais a cúpula de líderes, cerca de 20 reuniões ministeriais, mais de 50 reuniões de altos-funcionários, além de dezenas de eventos paralelos. As reuniões desdobram-se em 21 grupos de trabalho e 11 grupos de engajamento com a sociedade civil, englobando amplo espectro de temas. Nesse processo, Portugal terá a oportunidade de contribuir ativamente para as discussões em torno da busca de soluções duradouras para os desafios globais compartilhados.

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Portugal foi escolhido pelo Brasil como país convidado com base em uma avaliação política, que levou em conta não apenas nossa relação de amizade fraterna e confiança mútua, mas também a vocação da diplomacia portuguesa para construir pontes e estabelecer entendimentos com países próximos e distantes, dentro e fora do G20. O fato de Portugal possuir, nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros João Gomes Cravinho, “um lastro histórico que nos permite redes de conhecimento e teias de cumplicidade numa escala quase global” influenciou a decisão brasileira, na medida em que a presidência de turno do Brasil privilegiará a construção de consensos no grupo.

Portugal dará contribuição importante aos trabalhos do G20 nas mais diversas áreas. O diálogo com a União Africana, recentemente incorporada como membro de pleno direito do G20, é um exemplo. Os laços privilegiados mantidos por Portugal com países africanos, alicerçados em uma história compartilhada, em investimentos estratégicos e em expressivas comunidades, será um ativo para o agrupamento neste ano. Nas discussões sobre transição energética, Portugal, que como o Brasil conta com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, também poderá apresentar um aporte relevante. A coincidência de visões entre nossos países sobre o imperativo da reforma da governança das instituições internacionais é apenas mais um entre muitos exemplos.

O Presidente Lula anunciou como as três prioridades da presidência brasileira do G20 a inclusão social e o combate à pobreza e à fome; a promoção da transição energética e o desenvolvimento sustentável nos pilares económico, social e ambiental; e a reforma das instituições de governança global. A escolha dessas prioridades está ancorada na percepção de que o mundo atravessa crises múltiplas, que demandam ações coletivas para serem superadas, e a ordem internacional, hoje, não é mais efetiva, necessitando urgentemente de maior legitimidade.

A primeira das três prioridades, a fome e a insegurança alimentar se agravou em muitas partes do mundo, como resultado de fatores inter-relacionados, como a desigualdade entre os países e no interior deles, a pandemia e o conflito na Ucrânia, que aumentou a pressão sobre as cadeias globais de alimentos e os preços da energia. Nas palavras do Presidente Lula, erradicar a fome e reduzir desigualdades no mundo representam um “desafio civilizacional”.

A segunda, a crise climática, é uma preocupação para toda a população mundial, com recordes de altas temperaturas e desastres naturais sendo registrados com frequência cada vez maior.

E, por último, a reforma das instituições globais de governança é uma necessidade cuja discussão se arrasta há muito tempo, mas em que poucos progressos foram alcançados.

Para lidar com esses desafios, a diplomacia e o multilateralismo são mais necessários que nunca.

Nos próximos dias, 21 e 22 de fevereiro, o ministro João Gomes Cravinho participará, no Rio de Janeiro, da reunião de chanceleres do G20. Trata-se da primeira reunião ministerial do agrupamento, em que Portugal poderá apresentar sua visão sobre nossos desafios compartilhados e ter uma voz importante na busca pelas soluções de que todos precisamos. Neste momento, em que o Brasil volta a ter voz ativa no sistema internacional e se mostra engajado em contribuir para os esforços globais de promoção da paz e do desenvolvimento, ter Portugal ao nosso lado no G20 é motivo de grande alegria e nos fortalece na busca por um mundo justo e um planeta sustentável, lema da presidência de turno brasileira. 

Embaixador do Brasil em Portugal

Fonte: Diário de Notícias