Acordo Mercosul–UE adiado: o que está em jogo para Brasil e Europa
Especialistas destacam a importância do acordo para a ampliação de novos canais comerciais
A aprovação do acordo Mercosul-União Europeia foi adiada para janeiro, frustrando as expectativas do governo brasileiro em realizar a assinatura final para o último sábado (20) durante a Cúpula do Mercosul.
“Entramos em contato com nossos parceiros do Mercosul e concordamos em adiar ligeiramente a assinatura”, afirmou a presidente da Comissão Europeia Ursula Von der Leyen. As informações foram divulgadas pela AFP e Reuters no dia de ontem, quando estava prevista a votação do acordo em reunião do Conselho Europeu.
As negociações recentes foram cercado por tensões envolvendo as posições dos principais países-membro. Enquanto Alemanha, Espanha e Portugal se mostraram favoráveis à assinatura.
O primeiro-ministro português Luís Montenegro é um dos que endossam publicamente o apoio e disse que tem feito “uma insistência muito, muito significativa para não sairmos daqui sem as garantias de que isso (a assinatura) pudesse suceder muito rapidamente”, disse. Ele afirmou ser “imperdoável” não chegar a um acordo com o Mercosul.
Por outro lado, França, Polônia e Hungria se manifestaram contrários nesse momento, alegando que seriam necessárias novas salvaguardas aos produtores rurais locais. Os agricultores franceses realizaram grandes protestos com tratores contra o acordo em Bruxelas, onde ocorria o encontro do Conselho, e entraram em confronto com a polícia.
“Quero dizer aos nossos agricultores que manifestam a clareza da posição da França desde o início: em relação ao Mercosul, consideramos que não está tudo certo e que este acordo não pode ser assinado”, afirmou o presidente francês Emanuel Macron.
Mesmo com essa oposição, seria possível aprovar o acordo com o apoio de ao menos 15 dos 27 países do bloco, que representem 65% da população da União Europeia.
Na terça-feira passada, foi aprovado um conjunto de salvaguardas agrícolas que ofereceriam como instrumentos de garantia aos países opositores. Ainda assim, não houve o consenso para a assinatura.
No centro da disputa estava a Itália, um dos países mais populosos do bloco, e decisivo para a aprovação. A primeira-ministra italiana, Georgia Meloni, declarou que apoiaria o acordo comercial mas que precisaria de mais tempo para garantir o apoio interno, especialmente por parte dos produtores rurais italianos.
“O governo italiano está pronto para assinar o acordo assim que forem dadas as respostas necessárias aos agricultores, o que depende das decisões da Comissão Europeia e pode ser resolvido rapidamente”, declarou Meloni.
“Se a gente tiver paciência de uma semana, de dez dias, de no máximo um mês, a Itália estará junto com o acordo”, afirmou Lula. O Brasil tem pressa para a assinatura do acordo enquanto está na presidência rotativa do Mercosul e alertou que, caso não haja acordo, o bloco sul-americano poderá dar prioridade a outras parcerias comerciais.
Diogo Costa, diretor de clientes institucionais do Banco de Investimentos Global (BiG), ressalta que os produtores agrícolas europeus possuem o temor de que a entrada de mercadorias sul-americanos com custos mais baixos, especialmente carne bovina, aves açúcar e biocombustíveis, possa ser uma ameaça aos produtos europeus.
Já do lado do Mercosul também há o temor de que a abertura favoreça produtos industriais europeus competitivos em detrimento da indústria sul-americana.
“Há alguns entraves agravados com a combinação de fatores políticos, econômicos e ambientais que geram desconfiança entre os dois blocos. Estas preocupações legítimas sobre competitividade agrícola, sustentabilidade e padrões regulatórios devem ser superadas com diálogo e compromisso mútuo”, diz o presidente da Apex-Brasil Jorge Viana.
O acordo entre Mercosul e União Europeia chegou a ser anunciado de maneira informal em 2019 após quase 20 anos de negociações entre os dois blocos. Por conta de diversas mudanças políticas, uma assinatura prévia só chegou a ser feita no final de 2024. A aprovação definitiva, porém, precisa ser ratificada por meio da aprovação do Conselho Europeu antes da assinatura final.
Especialistas destacam a importância do acordo
O acordo entre Mercosul e União Europeia prevê a eliminação ou redução gradual de tarifas de importação e exportação de produtos entre os dois blocos, além de promover novos padrões regulatórios, possibilidades de investimentos e regras comuns para o comércio de bens industriais e agrícolas, por exemplo.
Juntos, os dois blocos representam um mercado de 780 milhões de consumidores e 25% da economia global. Especialistas têm se mostrado otimistas e acreditam que o acordo poderá abrir muitas portas tanto para a economia brasileira quanto para a portuguesa.
“O acordo entre Mercosul e União Europeia é um marco estratégico para ampliar a inserção internacional do Brasil, recuperar a relevância do bloco europeu nas exportações brasileiras e reforçar valores compartilhados como democracia e desenvolvimento sustentável”, afirma Viana.
Já o presidente da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Brasileira, Otacílio Soares, afirma que a conexão com a União Europeia oferece segurança cambial e estabilidade jurídica que o capital produtivo busca. Ele fala especialmente sobre a conexão entre Brasil e Portugal.
“A diferença fundamental é a conveniência estratégica. Ele cria empregos porque amplia mercados, reforça Portugal como hub europeu e abre para o Brasil o maior mercado consumidor do mundo. Investir aqui é garantir a entrada em uma plataforma com mais de 500 milhões de consumidores. É uma estratégia de escalabilidade inteligente”, destaca.
Diogo Costa analisa que o acordo poderá promover ganhos significativos em relação a novos investimentos, abrindo oportunidades de explorar novos mercados e cadeias globais de valor, especialmente em um momento em que o comércio mundial tem sofrido com as tarifas impostas pelos Estados Unidos para produtos importados.
“Este acordo constitui uma vitória da colaboração internacional, permitindo à UE e Mercosul intensificarem relações, num ano em que ambos os blocos econômicos tiveram que lidar com as novas tarifas impostas pelos EUA, que prejudica o comércio internacional e obriga empresas a procurar novas oportunidades estratégicas”, ressalta.
Publicação Original: Entre Rios
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