Tecnologia, aeronáutica e vinhos seduzem investidores brasileiros em Portugal
Investimento brasileiro em Portugal ganha novo fôlego, com o setor tecnológico a destacar-se como um dos principais polos de atração. Conheça os vencedores dos prémios “Aproxima Portugal – Brasil”.
O investimento brasileiro em Portugal está a ganhar um novo perfil, com os empresários do outro lado do Atlântico a apostarem sobretudo no setor tecnológico, aeronáutico e agroindustrial, enquanto o investimento português no Brasil continua concentrado no setor agroalimentar, construção, energia e serviços.
“Atualmente, as maiores oportunidades estão na área da tecnologia com os investidores brasileiros a usarem Portugal como um hub para a Europa, seguido pela área industrial”, afirma o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB), Otacílio Soares, em declarações ao ECO.
O investimento direto do Brasil em Portugal atingiu um stock de 4.212 milhões de euros no terceiro trimestre de 2025, o período mais recente para o qual o Banco de Portugal disponibilizou dados. No setor industrial destacam-se as apostas de duas multinacionais: da WEG na fábrica de Santo Tirso para produzir carregadores de veículos elétricos e da Embraer na fábrica de aeronaves Super Tucano em Beja.
Investimento direto do Brasil em Portugal

Se na área industrial, por envolverem “dezenas de milhões de euros”, estes são os dois investimentos mais significativos, o líder da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira destaca igualmente a aposta nos vinhos portugueses, dando o exemplo do milionário Rubens Menin que no ano passado reforçou o portefólio na região do Douro com a Quinta Bulas, num investimento de 6,5 milhões de euros.
Em 2024, os brasileiros compraram 85 milhões de euros de vinho português, o que representou um crescimento de 7,5% face a 2023. O Brasil é o terceiro maior destino em valor das exportações nacionais de vinho. “O vinho português tem uma aceitação muito grande no Brasil, o que ajuda na questão das importações”, sublinha Otacílio Soares, que em Portugal tem negócios na produção de vinhos (Domínio do Açor, no Dão) e na área do imobiliário e do arrendamento de propriedades.
O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira salienta ainda o azeite, que em 2024 viram as exportações superar os mil milhões de euros, com Portugal a ser o sexto maior produtor mundial e o terceiro na Europa, de acordo com números do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo. Nesse ano, o Brasil consolidou-se como o segundo maior destino do azeite português com as exportações a valerem 441 milhões de euros, mostram os dados do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral.
Em 2025, as exportações do Brasil para Portugal foram de 3,05 mil milhões de euros (uma quebra face aos 3,60 mil milhões do ano anterior), impulsionadas sobretudo pelos minerais e combustíveis, aeronaves e componentes aeronáuticos, óleos vegetais e sementes oleaginosas, açúcares e produtos agroindustriais, bem como madeira e seus derivados.
Por outro lado, as importações do Brasil provenientes de Portugal rondaram 1,23 mil milhões de euros no ano passado, uma subida face aos 1,10 mil milhões de euros registados em 2024, segundo os dados compilados pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira.
Construção e turismo em alta
Os investidores brasileiros continuam a “namorar” o setor financeiro, com Otacílio Soares a reforçar que “alguns bancos já analisaram e continuam a avaliar o mercado”, mas a advertir para a “questão de escala, tendo em conta que é menor do que a do Brasil”.
Em sentido contrário, o investimento português no Brasil concentra-se sobretudo nos setores agroalimentar, da construção, energia, serviços e tecnologia, com projetos de grupos de relevo como as energéticas Galp e EDP, a Mota-Engil, Sonae ou Vila Galé.
Otacílio Soares recorda que a “a maior obra de parceria pública e privada do Brasil foi fechada com uma empresa portuguesa, a Mota-Engil”, referindo-se ao contrato de concessão para a construção do túnel imerso no Brasil, que ligará as cidades de Santos e Guarujá, em São Paulo, e cuja concessão ganhou em setembro do ano passado. A construtora está ainda em fase avançada para assumir um megaprojeto de mineração na Bahia.
O líder da Câmara de Comércio recorda que grupos portugueses têm feito bastantes investimentos em hotéis no Brasil, dando o exemplo dos grupos Vila Galé e Tivoli, como forma de crescerem noutros mercados.
O primeiro-ministro afirmou, em fevereiro, que as trocas comerciais entre os dois países estão “num nível cada vez mais elevado e diversificado”. No âmbito da 14ª Cimeira Luso-Brasileira onde foram assinados 19 instrumentos bilaterais em áreas como a defesa, segurança, justiça, ciência, saúde, comércio, energia e cultura.
Oportunidade no Mercosul e problema na burocracia
Otacílio Soares considera que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul representa uma “oportunidade” para aprofundar as relações comerciais e económicas entre os dois blocos.
O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira sublinha que tem “aumentado o número de contactos de empresas brasileiras interessadas em usar Portugal como porta de entrada para o mercado europeu”. A maioria das questões colocadas prende-se com matérias fiscais, enquadramento regulatório e estudos de mercado.
O comércio total entre Portugal e os países do Mercosul significa atualmente cerca de 8,5 mil milhões de euros, mas entre os quatro países (Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai), o Brasil — desde logo pela longa relação bilateral — é o principal destino da venda de bens portugueses.
Numa alusão às tarifas de Trump que têm provocado “instabilidade” a vários setores de atividade, o líder da CCILB aponta que o acordo com o Mercosul “pode ajudar Portugal a ser menos depende de outras potências mundiais”, referindo-se aos EUA e China. “A instabilidade é diminuída à medida que o país tem acesso a outros mercados”, reforça Otacílio Soares.
Já questionado sobre quais são as principais barreiras que subsistem ao investimento brasileiro em Portugal, Otacílio Soares enumera a burocracia e lamenta a “falta da agilidade nos negócios”, salvaguardando, porém, que esta é uma questão cultural “superável”.
“No Brasil, as pessoas quererem tudo mais rápido, mais eficiente, enquanto em Portugal as coisas demoram o seu tempo para ser bem feito, para ser avaliado e reavaliado”, desabafa o presidente da CCILB, destacando que são “peculiaridades que têm de ser respeitadas”.
No entanto, enaltece que “estar em Portugal é um bom exercício para os brasileiros perceberem bem as regras da União Europeia”.
Prémios “Aproxima Portugal – Brasil”
Na terça-feira à noite, a CCILB celebrou “Os Melhores de 2026” com a entrega dos prémios “Aproxima Portugal – Brasil”. A iniciativa, que decorreu no Tivoli Kopke Porto Gaia Hotel e que reuniu uma centena de empresários, reconheceu personalidades e entidades cujo trabalho se destaca no reforço das relações económicas, culturais, sociais e institucionais entre Portugal e o Brasil, num total de dez categorias, que vão desde a personalidade do ano, turismo, cultura e comércio.
Veja a lista completa de premiados – Personalidade do Ano 2026:
- Infraestruturas, Investimento e Integração Económica: Carlos Mota Santos (Mota-Engil)
- Integração Institucional e Promoção do Investimento: Jorge Viana (ApexBrasil /Casa Brasil)
- Cultura, Educação e Cooperação Académica: António Feijó (Fundação Gulbenkian)
- Comércio, Serviços e Desenvolvimento Económico Regional: Nadim Donato (Fecomércio-MG)
- Aviação, Mobilidade e Conectividade Estratégica: Luís Rodrigues (TAP Air Portugal)
- Promoção de Portugal como destino turístico de excelência: Carlos Abade (presidente do Turismo de Portugal)
- Jornalismo, Informação e Espaço Público Luso-Brasileiro: Amanda Lima (Diário Notícias Brasil)
- Indústria, Design e Internacionalização da Marca Portugal: Fernando Daniel Nunes (Vista Alegre)
- Desenvolvimento Urbano, Diplomacia Local e Projeção Internacional: Catarina Santos Cunha (Cidade do Porto)
- Economia Criativa e Internacionalização Cultural: Marco Lessa (Origem Week)
Publicação Original: https://eco.sapo.pt/2026/02/26/tecnologia-aeronautica-e-vinhos-seduzem-investidores-brasileiros-em-portugal/
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